Republicamos aqui o texto publicado recentemente no blog Luta de Duas Linhas dado a sua importância na luta de duas linhas no âmbito do marxismo-leninismo-maoismo.
Camarada Vítor – Comitê Comunista Maoísta
Em recente nota em sua página, o blog Servir ao Povo troca as indiretas e recadinhos picantes contra nossas posições por um ataque aberto¹. Os blogueiros deram um verdadeiro chilique porque dissemos que sua página é o porta-voz oficioso da Fração Dogmato-Revisionista agrupada em torno do pecebê de três pontos (um para cada década de palavrório oco). Se o problema dos referidos escrevedores fosse apenas a incompreensão sobre a diferença semântica entre oficioso e oficial, bastaria um dicionário para esclarecê-los. Nossa língua é complexa, e temos diversos casos em que palavras parecidas significam coisas distintas, como, por exemplo, iminente e eminente, caudaloso e caudatário e por aí vai. O problema é que se trata de algo mais profundo do que analfabetismo funcional, mesmo o político: é o caso da mais pura e simples desonestidade. Como já se disse certa vez, a ignorância está mais próxima da verdade do que o preconceito. Mas, afinal, o que esperar de “marxistas” que recomendam a leitura de Nietzche e equiparam a militância no partido comunista ao “super homem” do filósofo aristocrático alemão?² E essas pessoas se julgam sucessoras do Camarada Gonzalo! Convenhamos, pode-se acusá-las de tudo, menos de falsa modéstia.
Evitando qualquer debate político sério, os redatores se põem a xingar e a caluniar tanto o blog Luta de duas linhas como o “Camarada Vítor”. Viciados no método anti-marxista de atacar a pessoa no lugar das posições, eles não se dão conta do ridículo de caluniar… um pseudônimo, que apenas expressa, de forma polêmica, o que são posições coletivas. E mais: desde a cisão, este agrupamento político não teve nenhum pudor em vincular, em seus documentos internos, nomes de guerra a atividades públicas de militantes; em atacar nominalmente quadros em eventos abertos; de recorrer inúmeras vezes à calúnia, à tentativa de suborno e às ameaças para tentar deter a crítica implacável que lhes fizemos; de filmar e fotografar, em diferentes ocasiões públicas, as organizações que acompanharam a cisão, exatamente como fazem desde sempre os policiais infiltrados no movimento popular. Estes cínicos fazem como o ladrão, o qual, ao ver-se em apuros, grita para distrair o público: ‘pega ladrão!’.
Como qualquer pessoa pode comprovar, é este o único blog que publica em português tanto as declarações do pecebê de três pontos quanto da sua pseudo-internacional da Europa Ocidental chamada LCI. Inclusive, os ousados redatores da página se põem a injuriar partidos com larga atuação no MCI, como o Partido Comunista (maoista) da Itália e a tecer considerações, digamos, extravagantes, sobre a Guerra Popular Prolongada na Índia, que começou a aparecer mais frequentemente em suas publicações exatamente após a cisão. Ora, isto é defender de maneira oficiosa uma posição, e o fato de rasgar as vestes acerca disso, mas não pronunciar uma palavra sequer sobre o mérito da discussão, é apenas um truque de vigaristas e nada mais. Se isto é tudo o que eles têm a apresentar contra nós, resta-nos dizer que a montanha pariu um rato – palavrinha que parece povoar bastante o universo mental de nossos detratores, provavelmente por estarem acostumados a viver no esgoto, muito longe da luz do sol que nos trazem o contato com as massas e o exercício constante da luta de duas linhas.
Sobre a série de calúnias sem provas, elas apenas se voltam contra os dedos sujos que as apontam. A menos que apresentem provas – que não têm, assim como seus pseudos chefes não têm estatura para sustentar em público as suas próprias definições– só merecem o repúdio e o desprezo de qualquer pessoa honrada. Como dizia o mestre Lênin, “a injúria em politica encobre frequentemente a completa carência de ideias, a impotência, a frouxidão, frouxidão repugnante dos injuriadores” ³ Tal método se opõe diametralmente ao que ensinam os clássicos do marxismo-leninismo-maoismo. Como disseram recentemente os camaradas do movimento revolucionário da Índia, que travam uma luta heroica em defesa do partido contra o oportunismo e o liquidacionismo:
“A política revolucionária não pode ser reduzida a personalidades, amizades ou associações de longa data. As massas devem aprender a avaliar as posições políticas com base em seu conteúdo de classe e em suas consequências práticas. Também devemos rejeitar a tendência de transformar divergências políticas em disputas pessoais. O movimento revolucionário não deve depender de cultos à personalidade nem reduzir a crítica política a ataques pessoais. Ao mesmo tempo, a crítica política não pode ser silenciada acusando todo crítico de ser motivado por hostilidade pessoal. A abordagem correta é examinar a linha política”⁴.
Com efeito, a ideia de fazer da divergência política uma batalha moral, de substituir a luta de duas linhas pela pessoalização das divergências e, o que é pior, tachar, sem nenhuma prova, adversários políticos como policiais, pelo simples fato de que dissentem de si, não é apenas ridículo, mas constitui o procedimento típico da repressão política desde que apareceu o movimento comunista. No seu tempo, tampouco Marx e Lênin passaram incólumes a este tipo de calúnias, quando ousaram remar contra a corrente e criticar as tendências errôneas, ainda que temporariamente hegemônicas, do seu tempo. Na luta contra o Partido Panteras Negras, o FBI, no contexto da sua operação COINTELPRO, também usou e abusou do expediente de “sujar” qualquer crítica como se fosse provocação, insuflando a coação física como maneira de tratar as divergências e desacreditar o movimento revolucionário. De fato, uma situação em que todos acusassem todos de traidores e substituíssem a luta ideológica pela troca de tiros e de socos seria perfeita para a ação policial nos meios operários e populares. Por isso, inclusive, nos abstivemos até aqui de responder neste terreno as provocações dos gonzalistas envergonhados, embora estes tenham cruzado diversas vezes a fronteira do aceitável.
Como se sabe, o radicalismo de boca é procedimento comumente usado pelos provocadores para ganhar credibilidade no meio popular, sobretudo, entre a pequena burguesia radicalizada. Esta também se sente particularmente seduzida pelas ações individuais, de “excitação artificial” da luta de classes, contra as quais Lênin se pronunciou de maneira taxativa. Por isso, mesmo contra os oportunistas, que expressam posições direitistas sobre a luta social, deve-se fazer em primeiro lugar a luta de ideias, não só por um imperativo doutrinário, mas porque esta é a forma mais eficaz de separar o joio do trigo nas fileiras da revolução. Foi este o método preconizado e aplicado sempre pelo Presidente Mao. Lembremos, ademais, que durante a resistência armada ao regime militar no Brasil, as divergências sobre os caminhos e etapas da revolução brasileira produziram cisões e dissensões bastante duras entre as organizações clandestinas (o próprio PCdoB viu surgirem cisões com críticas importantes às suas formulações, como o PCR e a Ala Vermelha; Lamarca, dirigente da VPR, veio a se filiar ao MR8), sem que isto descambasse para a lama das acusações e calúnias de parte a parte. Existe uma coisa chamada moralidade revolucionária, totalmente estranha à imoralidade de lúmpens que campeia nas fileiras dos dogmato-revisionistas, que se resume ao seguinte: vale tudo para defender o aparato, inclusive ir contra os princípios. Esta é a concepção de funcionários, cujo único compromisso é manter seu estilo de vida ligeiramente melhor que o do proletariado, uma das fontes do revisionismo, como assinalado pelo camarada Lênin⁵. Foi o apontamento deste tema crucial da nossa parte que gerou o pico de pressão nos blogueiros do Servir ao Povo.⁶
Examinada por este ângulo, a constatação que se impõe é que são os gonzalistas envergonhados aqueles que agem como elementos provocadores, a soldo ou não, no seio do movimento popular. A esse respeito, é preciso acrescentar que uma organização revolucionária consequente só pode se apoiar nas massas. Ausente esta condição, como poderia manter seu aparato? Assim como as ideias corretas, os recursos humanos e materiais também não caem do céu e suas fontes só podem ser as massas populares ou o dinheiro sujo do Estado reacionário e seus múltiplos tentáculos. Não há terceira via possível. Que as pessoas pensem um pouco a respeito.
As divergências e a luta de duas linhas não são apenas comuns, como são o motor de desenvolvimento de um autêntico partido comunista. Na sua luta contra os elementos liquidacionistas, os revolucionários naxalitas têm sublinhado uma e outra vez isto:
O centralismo democrático combina discussão coletiva e participação democrática com unidade na ação. Sem democracia, o centralismo degenera em burocratismo. Sem centralismo, a democracia pode transformar-se em fragmentação e individualismo. A organização revolucionária deve, portanto, manter a unidade dialética de ambos. Mao Tsetung enfatizou a relação entre democracia e centralismo, liberdade e disciplina, como dois aspectos de um todo unificado. Nenhum deles pode ser mecanicamente separado do outro. Uma organização revolucionária não pode funcionar de acordo com os desejos individuais de seus membros. Tampouco as diferenças políticas podem ser resolvidas por meio de campanhas pessoais, mobilização nas redes sociais ou criação de grupos de pressão concorrentes. As divergências devem ser enfrentadas por meio de uma luta ideológica e política baseada em princípios⁷.
Embora sonhem em se aproveitar dos golpes e perdas sofridos pelo PCI (M) para vê-lo afastar-se da sua tradição revolucionária, a verdade é que não há nada ali aproveitável para os gonzalistas: trata-se de água e óleo, pela simples razão de que o gonzalismo não é maoísmo. Em termos filosóficos, a posição gonzalista envergonhada é uma regressão, é uma renúncia às contribuições do Presidente Mao sobre a universalidade da contradição e sua aplicação à teoria do partido comunista. Ela se constitui numa espécie de linha Wang Ming reeditada, como exaustivamente demonstrado em nosso Documento “Pedra de toque”, que circulou amplamente no MCI e jamais foi respondido pelos dirigentes do P.C.B⁸. Os gonzalistas envergonhados são uma expressão concentrada, no plano ideológico, da época de dura contrarrevolução que vivemos, pois eles são os comunistas tal como vistos pela lente da reação.
Claro, a luta de duas linhas não deve desembocar necessariamente na cisão e esta não deve ser banalizada. Ela é, no entanto, um recurso legítimo, que deve ser mobilizado se se apresentam duas condições: a) se há graves e persistentes violações aos princípios doutrinários do marxismo-leninismo-maoísmo, e se b) não há um correto funcionamento partidário, assentado no centralismo democrático, bem definido pelo Presidente Mao como unidade de democracia e de centralismo. As duas condições estão presentes nos gonzalistas envergonhados brasileiros, inclusive o mais básico, qual seja, a revisão da própria caracterização da ideologia internacional do proletariado, que para eles não é o marxismo-leninismo-maoismo. Eles negam de fato que as formulações do Presidente Mao sejam suficientes para responder aos desafios da revolução em nossa época, e nisto convergem para as posições de Prachanda e Avakian. Aliás, negam inclusive que o maoísmo surgiu e foi sistematizado no fogo da revolução chinesa. Como dissemos em nosso documento “Pedra de toque”, a tese de “principalmente maoísmo” significa na verdade secundariamente maoísmo.
Do ponto de vista político, o seu fracasso como projeto comunista independente no Brasil não é uma hipótese a ser comprovada, mas um fato consumado: com efeito, o País viveu, entre junho de 2013 e 8 de janeiro de 2023, uma década de crises políticas, econômicas, institucionais e militares ininterruptas. Ora, o que fizeram os “campeões da guerra popular” neste período, além de soltar declarações e construir “batalhas” fotográficas na sua imprensa, que não tiveram nenhum prosseguimento orgânico ou repercussão na luta de classes a nível nacional? Semelhante prática os converte cada vez mais em um grupo raivoso de internet, da onde recrutam a maior parte dos seus ativistas. Os trabalhadores da cidade e do campo, com seu poderoso instinto de classe, não se deixam enganar por semelhantes expedientes. A cisão e denúncia destas concepções subjetivistas é uma condição para lutar pelo verdadeiro Partido.
Aqui, devemos ressaltar que os dogmato-revisionistas brasileiros são uma caricatura reformista do chamado Pensamento Gonzalo. A propósito, eles poderiam aproveitar seu canal espírita com o próprio Gonzalo e indagar se este concordaria com a reconstituição do Partido militarizado e definição do seu “pensamento guia” fora da guerra popular prolongada…⁹ O mesmo Camarada Gonzalo escreveu, certa vez, que em uma reunião com comunistas da Espanha, estes, ao verem sua formulação sobre Chefatura e Pensamento Guia, conclamaram que seu partido era guiado doravante pelo “Pensamento Roberto”, codinome do seu dirigente¹⁰. Claro que Gonzalo não chancelou semelhante definição, pois a formulação do PCP é cristalina: o pensamento gonzalo se forjou e foi nomeado no curso da guerra popular, processo inseparável da reconstituição do partido¹¹. Segundo o próprio Camarada Gonzalo, a Reconstituição do Partido Comunista do Peru terminou em 1979 e, meses depois, em maio de 1980, teve início a guerra popular prolongada¹².
Se comparamos a formulação original dos maoístas peruanos (não é aqui o lugar para sua avaliação crítica, o que temos feito em outros documentos) com a prática dos seus cultuadores brasileiros, veríamos que estão mais distantes entre si do que o céu da terra. Traduzindo para uma linguagem política precisa, veríamos que, ao contrário do que sugere sua verborragia raivosa, os gonzalistas envergonhados brasileiros e congêneres, agrupados na LCI, não são um corrente “esquerdista” do movimento comunista, mas uma caricatura direitista, um subproduto reformista de baixíssimo valor agregado da heroica guerra popular no Peru, como bem assinalado pelos camaradas do Partido Comunista da Suíça¹³. Ou seja, trata-se de uma corrente política que faz uso descarado da calúnia e da mentira como método de luta, e que não tem compromisso com a própria ortodoxia que diz defender. O Camarada Gonzalo é para eles um mero ícone, que dá lastro aos seus delírios de grandes homens e às suas próprias formulações revisionistas.
Isto nos leva a concluir que, se pudesse sentir o mau cheiro da obra que certos gonzalistas produzem em seu nome, ao célebre dirigente peruano só lhe restaria dizer, com desgosto: semeei Gonzalos, colhi Robertos!
2 “Reconhece [o revolucionário profissional] o infinito da obra humana. Compreende como o Zaratustra o sentido da terra. É santo dessa terra, herói desses homens e gênio das pequenices do momento. Não aspira o ‘transcendentalismo’. Tem orgulho de ser ponte para que os demais avancem sobre ele. Provavelmente não acreditará no super-homem nietzscheano. Mas reconhece o progresso que existe desde a ameba ao macaco até o homem. Da mesma maneira, o materialismo histórico o ensinou a transformação do feudal ao burguês, e deste ao proletário”. Pela criação de revolucionários profissionais (Julio A. Mella, 1926) – Servir ao Povo .
3 V.I. Lênin, “o significado político da injúria”, 1914.
5 “Antes da guerra, o oportunismo — considerando a Europa como um todo — estava, por assim dizer, na sua adolescência. Com a guerra, atingiu a plena maturidade, e a sua ‘inocência’ e juventude já não podem ser recuperadas. Amadureceu toda uma camada social de parlamentares, jornalistas, dirigentes do movimento operário, funcionários privilegiados e certos setores do proletariado — uma camada que se fundiu com a sua burguesia nacional, a qual soube valorizá-la pelo seu verdadeiro mérito e ‘adaptá-la’”. Lênin, “A bancarrota da II Internacional”, 1915.
6 Partido de revolucionários profissionais ou partido de funcionários profissionais? – Luta de Duas Linhas
7 Idem.
8 Marxismo-Leninismo-Maoismo: a pedra de toque da revolução proletária no nosso tempo – Luta de Duas Linhas
9 De fato, o “P.G.” assinou uma carta ao leitor publicada num certo jornal, que deve ter sido redigida do sítio fundado por Chico Xavier: https://anovademocracia.com.br/cartas-do-leitor-2/ À parte o ridículo, trata-se de um tráfico abjeto e vergo8nhoso, talvez jamais realizado desta forma, com o sacrifício de um processo alheio, que deve ser registrado a título de infâmia eterna.
10 “…cuando hemos tenido una reunión con los camaradas de España, al ver el problema de pensamiento guía, del pensamiento que llamamos Pensamiento Gonzalo, c. R que encabeza el Partido Comunista de España, ya creía que él era ´pensamiento Roberto`, acaban de fundarse no hacía ni seis meses y ya creía que él era ´pensamiento Roberto`; no puede ser pues camaradas, qué fácil sería así ¿no?, así no se genera ningún pensamiento en ninguna parte de la tierra”. (Acerca del Pensamiento Gonzalo, PCP, 1988).
11 “Este fue antes nominado pensamiento guía; y si hoy el Partido en el Congreso ha sancionado pensamiento gonzalo es porque se ha producido un salto en ese pensamiento guía, precisamente en el desarrollo de la Guerra Popular”. (Entrevista a El Diario, 1988).
12 “El proceso de Reconstitución va a desenvolverse en el Partido hasta el año 78-79, en torno a esos años va a terminar este período y se va a entrar a un tercer momento, el momento de la Dirección de la guerra popular que es en el cual estamos viviendo”. (Idem).
13 Ver os comentários sobre a Declaração de 1.o de Maio de 2026: https://maoistroad.blogspot.com/2026/05/comments-by-communist-party-of.html